sebastião natálio

Tenho lido os comentários dos colegas e reitero o que eles dizem sobre o crescimento na qualidade do que vem sendo produzido. As pautas trazem uma variedade de temas de grande relevância, tanto para a comunidade acadêmica, quanto para a população de modo geral. Nesse mesmo viés, observamos nesta edição do Periódico a preocupação em trazer a comunidade para dentro da universidade, através dos entrevistados.
Há um interesse muito grande sobre as políticas públicas, que devem permitir ao cidadão viver em uma cidade mais justa, onde ele tenha conhecimento do destino dos inúmeros impostos que paga. Isso se configura em temas como a CEI da Münchenfest e a questão do aterro do Botuquara, que tem recebido uma atenção bastante interessante. O debate sobre as questões religiosas e de gênero também ocupam a agenda do Periódico.
No caso específico do aterro, precisaríamos ouvir lideranças que são contrárias ao uso do local por mais dois anos, visto que desde 2012 as atividades já deveriam ter sido encerradas, não fosse um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado à época, o primeiro de uma série. O contraponto, o ouvir o outro lado, é essencial no jornalismo. Tenhamos isso sempre em mente. Os complementos feitos pela repórter Mirna Bazzi ajudam a entender e ficar por dentro da história, mas continuam sendo a opinião do jornal.
Nessa edição do Periódico, os alunos trouxeram também a votação da Câmara dos Deputados, que pela segunda vez livrou o presidente Michel Temer de ser investigado. Penso que a pauta deveria/poderia ter sido melhor desenvolvida, com opiniões de cientistas políticos, dos políticos locais, e da própria comunidade para sentirmos o que o ponta-grossense pensa sobre o caso.
Este tratamento foi dado ao caso da cantora drag queen Pablo Vittar e a polêmica causada pelo vereador pastor Ezequiel, que ameaçou prendê-la caso ela venha à cidade “de famílias tradicionais e de bem”. Boas fontes falaram sobre o caso, tentando por fim ao preconceito. É esse o caminho que devem seguir as demais pautas.
Ainda implico com o jornalismo de bancada, mas entendo as limitações técnicas. Sugiro uma pesquisa com os leitores para ver que pautas outras eles querem ver trabalhadas no Periódico. Uma delas, minha sugestão, é investigar como estão os espaços de exposições de arte na cidade e que tipo de atenção eles recebem, se recebem.

 

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A errata é a punhalada no coração de qualquer jornalista. Como explicar para uma pessoa que não é da área a dor que se sente ao descobrir que, apesar de todos os esforços, você falhou?

 

A matéria-prima do jornalismo é informação. E informação, por si só, é algo relativamente efêmero. Você pode checar, rechecar, conseguir várias confirmações diferentes. E ainda assim deixar a desejar em algum ponto da apuração. São coisas da vida. Todo mundo erra. No jornalismo não seria diferente.

 

Mas a errata, para um jornalista, tem algo de diferente do simples reconhecer um erro. Além de admitir, você precisa publicizar com destaque a informação correta e dizer com todas as letras o "ao contrário do que a matéria informou".

 

Se for pensar bem, é cruel. Não basta a autopunição que todo jornalista comprometido se impõe ao perceber a falha. Isso não é suficiente. Você ainda precisa expor esse "fracasso" em praça pública. Se preocupar com o que os colegas irão pensar. Sentir que nunca mais vai recuperar a credibilidade. Ah, que sofrimento.

 

Mas posso dizer do alto das minhas erratas que, infelizmente, todo jornalista vai errar vez ou outra. Ninguém quer isso, mas é praticamente impossível não acontecer em algum(ns) momento(s) da trajetória profissional. Ninguém está imune.

 

Digo tudo isso porque me surpreendi positivamente com a errata dada no último Correspondente Local. Era uma coisa relativamente pequena (a data de um jogo), mas o Periódico acertou ao fazer uma nova postagem no Facebook e acrescentando a nota na matéria original.

 

Mais importante que querer estar certo o tempo todo é buscar retificar informações para que elas sejam as mais claras e verdadeiras possíveis.

 

Arrisco acrescentar que a errata é o maior exemplo de compromisso de um jornal com o seu público. Ao invés de perder credibilidade, acontece o contrário.

 

Um jornalismo pronto a admitir falhas e aprender com elas é o jornalismo que queremos em um mundo repleto de fake news e desinformação.

 

Adendo: adorei a iniciativa de o jornal começar a publicar charges. Como comentei na palestra na 26a. Semana de Comunicação, a charge é um elemento importante que sintetiza o contexto de um período. Muitas vezes, uma charge fala mais que muitas páginas do jornal.

 

Adendo 2: me surpreendeu positivamente perceber o avanço em termos de técnica e teoria da produção jornalística das últimas semanas. Matérias mais bem embasadas, contextualizadas, com "outro lado". Fica aqui minha menção honrosa à matéria sobre intolerância religiosa, que capturou um gancho do momento (o ensino religioso nas escolas) para ampliar o debate. Mesma coisa a matéria sobre a falta de leis que criminalizam homofobia (também louvável pela abordagem multimídia).

Entre as primeiras postagens e as mais recentes, um curto período e um imenso aprendizado. Há de se reconhecer o salto na qualidade das produções do Periódico ao longo das últimas semanas. É presente nas pautas, nas fontes, temas e intenções.

Periódico é Ponta Grossa, é o cidadão, é o excluído e o ignorado pelo poder público, é a múltipla manifestação da cultura, é o que nos cerca na universidade e seus desenhos, é o grito do esporte. Temos um propósito mais claro, um planejamento cuja missão transparece dia a dia nas publicações. O jornal que encorpa e mostra a (r)evolução dos seus jornalistas em formação.

O resultado desse esforço se publica junto com a matéria. Está nas entrelinhas das manifestações da periodicidade, do eterno retorno. Não se trata de “rasgar seda”, ou, quando o contrário, apedrejar. Mas sim reconhecer o que se avança e o que há de se avançar.

Uma dessas guinadas, atrevo-me a invadir a semana de outro ombudsman, é a checagem de fatos realizada. Não toco no conteúdo, que já foi tratado neste espaço, mas em destacar o senso de oportunidade. Experimentar as tendências e o que se coloca como “novo” para aprimorar a lida com a notícia.

Inovar e renovar. E não apenas abrindo novos flancos com a coluna de checagem, mas também adotar outras formas que não as convencionais para amplificar a conexão do leitor com a informação. Mapas, gráficos, infográficos e demais recursos. Apropriar-se do que há de mais excitante no online...as múltiplas narrativas.

Ainda no tocante ao fact-checking, tem que se ressaltar a clareza do caminho percorrido. Um bom trabalho! Transparência no método de análise, no caminho que se percorre para refutar ou corroborar uma alegação. É o elemento basilar para esta etapa de produção jornalística que nos últimos tempos galga status de “produto”. A credibilidade se constrói na transparência. E isso se dá, dentre outras formas, demonstrando embasamento, e sobretudo apontando a origem e contexto dos dados.

E aqui um destaque para o que entendo que há de se aprimorar. O embasamento, a comprovação, o além do “dito e não dito” para concluir um discurso ou uma lógica. Nesta última semana de quarta-feira a quarta-feira, ciclo de análise que cabe a cada ombudsman, fiquei angustiado com a desfaçatez do poder público no caso da usina de asfalto.

Parte desse aperto na garganta é pelo drama e desespero de quem se intoxica diariamente com o abandono. Mas a outra parte é pela narrativa que patina entre declarações, e que nos braços que se levantam em busca de um fecho que embase o confronto, não encontra nada mais sólido que o repetido suspiro de quem não é ouvido.

Menos fraco o argumento? Não. Mas paira um ar de punhos abaixados, tanto lá quanto cá. Rigor no método, transparência nas ações e litros de persistência para que a obrigação de publicar e dar fim a uma tarefa não sufoque a nossa chance de ir além!

 

 

 

Diz a máxima que o insumo básico do jornalismo é a informação. Mas só se chega até ela, em seu estado mais puro, por meio da mais fundamental ferramenta de um jornalista: a pergunta.
Colocar o mundo em dúvida é a missão diária – e muitas vezes ingrata – de um jornalista, para além de informar. O bom repórter não apenas relata o que presencia ao seu redor, entre acontecimentos e personagens, mas problematiza e provoca o debate. “Por que o sr. prefeito prometeu isso, mas só entregou aquilo?” “Sinto muito, mas esse autor que o sr. cita, na realidade, nunca escreveu isso.” “Pai, já falei que nem tudo o que se lê no WhatsApp é verdadeiro.”
Por isso merecem meus aplausos a mais nova iniciativa deste Periódico: a série Foca nos Fatos.
Na esteira da explosão das iniciativas de fact-checking, o Foca nos Fatos faz um saudável exercício de questionamento e pensamento crítico. Em tempos onde a informação não é monopólio dos jornais (com a dor e a delícia que isso representa), e qualquer cidadão é um potencial produtor de conteúdo, a checagem profissional de informações ganha relevância – em especial daqueles que ocupam cargos eletivos ou funções públicas, às vésperas de mais um ano eleitoral.
O primeiro Foca nos Fatos, sobre o saneamento básico em Ponta Grossa, tem o mérito de ir além da pesquisa que informa que a cidade é a sétima do país em cobertura. Detalha a metodologia do levantamento, vai atrás de novos dados e, de quebra, faz uma crítica de mídia, listando os jornais que reproduziram a informação sem contextualizá-la.
É uma iniciativa bem-vinda, mas o mesmo espírito pode (e deve!) ser incorporado em outras reportagens do portal.
Por que não questionar, por exemplo, na reportagem sobre o aeroporto de Ponta Grossa, se a nova estação de tráfego aéreo de fato reduziu o número de voos alternados? Por que não confrontar, de forma mais incisiva, a secretaria da Educação sobre a presença de imagens religiosas nas escolas públicas, sendo que as diretrizes curriculares do Estado estabelecem que as discussões sobre o sagrado sejam feitas numa perspectiva laica? Que tal destacar, entre os temas debatidos no congresso de administração, aqueles com enfoques inovadores ou controversos?
O exercício cotidiano da dúvida, esse sim, é o verdadeiro insumo do jornalismo.




 

É um exercício muito comum entre nós jornalistas fazermos um apanhado de tudo o que já produzimos na vida pelos tantos veículos pelos quais passamos. E, o mais comum é pensarmos: como escrevi essa bobagem? Que texto ruim? Hoje eu não escreveria dessa maneira. Se não fizermos essa autocrítica tem algo de errado que precisa ser consertado.