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Hoje eu entrego minha última contribuição para este ombudsman atrasada. Um dia de atraso, em meio a entrevistas que deram certo, outras que não renderam, matérias que viraram e outras que morreram na casca.
 
Nem sempre quem lê o trabalho final de um jornalista sabe o percurso dos bastidores. A fonte que não retornou, a grosseria de alguém ao telefone, o microfone que falhou na hora h, as madrugadas coletando dados no Excel, uma crítica pesada. Se hoje algumas dificuldades me são até familiares, elas pareciam muito mais opressoras na época em que eu era estudante. Por onde eu começo essa entrevista? E se eu não conseguir o equipamento? E se ninguém me responder porque eu ainda estou na universidade? Nunca fiz isso, será que vai dar certo?
 
Foram quatro meses como ombudsman deste Periódico. Como leitora, ainda que com um olhar jornalístico. Mas com um olhar que desconhece os percalços de cada reportagem que li. 
 
Quem não sabe o que deu errado tem sempre mais facilidade em dizer o que daria certo. Eu não conheço as limitações que cada estudante teve aqui, ao entregar sua reportagem. Apontei problemas e sugeri caminhos, mas nada sei da prática de cada um, do tempo que há disponível na semana, das famílias a serem cuidadas e necessidades a serem supridas. Também não sei, em especial, o que deu errado: o que foi tentado e não deu certo; quem foi contatado, mas não deu retorno; que entrevista naufragou na última hora.
 
Alguns nomes graúdos no jornalismo defendem que abramos mais os nossos bastidores. Chamemos o leitor a conhecer nossa “cozinha”. A saber de nossas dificuldades e rotinas. Compartilhar as nossas dúvidas. Seria um bom antídoto para muitas das ‘teorias da conspiração’ sobre os interesses dessa e daquela matéria –tantas inferências sobre o que pode ser simplesmente o permanente esforço humano de acertar.
 
Tem dias em que as coisas não vão dar certo. Aquela matéria especial que estávamos cavoucando há semanas vai se provar uma cascata. Uma notícia de última hora vai ser publicada com um deslize factual. As aspas de um entrevistado vão sair erradas por falta de conferir a gravação. 
 
Meu último pitaco de ombudsman é esse: vamos falar mais sobre isso. Expor o nosso processo criativo, debater os nossos “erramos”, compartilhar nossos aprendizados. A maravilha de ser estudante é que o processo de aprendizado é francamente incentivado. O Periódico já contribuiu para isso, com esta coluna, da qual participei com muito orgulho e carinho. Mas seria muito bom ouvir também as experiências de vocês. Não só sobre as matérias que deram muito certo –mas também, e por que não, sobre aquilo que não saiu como o esperado.
 
Que o ano novo venha repleto de experiências. Vida longa ao Periódico!