É um exercício muito comum entre nós jornalistas fazermos um apanhado de tudo o que já produzimos na vida pelos tantos veículos pelos quais passamos. E, o mais comum é pensarmos: como escrevi essa bobagem? Que texto ruim? Hoje eu não escreveria dessa maneira. Se não fizermos essa autocrítica tem algo de errado que precisa ser consertado.

Todos nós temos um estilo que exercitamos quando a notícia a ser produzida, ou o veículo, nos permite. A objetividade no jornalismo não nos força a trabalharmos como em uma linha de produção, muito pelo contrário. Quem faz isso é a empresa. Por outro lado, precisamos estar atentos ao “jornalismo de responsabilidade”, referenciado por Weber, aquele comprometido com a informação e suas consequências a partir das suas repercussões.

 

Essa objetividade não carece ser sisuda no modo como produzimos as nossas matérias. As histórias devem ter a aspereza ou a leveza necessária, mas de modo a conduzir o leitor até o fim do assunto. Ficamos presos naquele exercício quase burocrático de servirmos ao deus lead e nos esquecemos de exercitar nossos conhecimentos, procurando rotas alternativas para a elaboração dessa notícia. É preciso fazer essa dosagem, e, por aqui, não temos observado isso.

 

Pelo material exposto na página do Periódico vê-se uma semana cheia, com assuntos expressivos, densos. São notícias que quase se interligam, mas que não precisariam ser tratadas todas na mesma semana. Na pauta da grande imprensa é bem provável que elas apareçam distribuídas ao longo do mês, principalmente em fins de semana. Pelo menos é o que se nota nos jornais locais.

 

O caso Sandro Murilo Pedrozo, a ausência de legislação contra a homofobia, que faz um link com o caso Sandro, a questão do suicídio e o aborto, estão em um mesmo pacote, que pode incomodar o leitor, em busca, também, de temas leves. Mas não vi novidade nessa reportagem, além do que já tomamos conhecimento por outros meios. Lógico, sem tirar a relevância do fato e não deixá-lo cair no esquecimento.

 

Sobre isso, nesses mais de 20 anos que transito pelos meios de comunicação, e o que nos tira o ânimo de continuar neles muitas vezes, é o fato de que existe uma repetição nos temas, quase sempre nessa ordem: transporte público, trânsito, destino do lixo, abandono do patrimônio histórico, datas comemorativas, festas de fim de ano, preço do material escolar, carnaval e Páscoa. Pouco se avança e por conta da dependência do poder econômico político, qualquer insinuação de ir além é vedada pelos diretores dos veículos.

 

Na matéria que trata da legislação contra a homofobia e seus prejuízos à população LGBT, ao se anunciar a entrevista com o transexual, Henry Miguel Mathias, o espectador avança no vídeo à espera de algo mais; que não tem. Não chega a ser uma entrevista de fato, mas um curtíssimo depoimento, sem contextualização, sem mais questionamentos. E a história dele pede um pouco mais de foco. Ficou raso.

 

Sobre o suicídio, que tem setembro como mês de prevenção, anuncia-se apenas que haverá uma palestra sobre o tema e relembra que já foi assunto de pauta anterior. Na questão do aborto, no “Ponto da Notícia – Entrevistas”/ “Série Mulheres”, as perguntas são bem acadêmicas mesmo, aquelas que fazemos sem uma contextualização, didáticas ao extremo.

 

A entrevista é uma arte que desenvolvemos com muito exercício, muita leitura e aquele monte de coisas que acumulamos em nossa bagagem ao longo da vida, a tal bagagem cultural. Nesse tempo, fuçando nesse balaio, é que aprendemos a usar os ganchos e dar as deixas certas para que o papo com o entrevistado flua. Não vamos descartar a importância deste didatismo com que o assunto foi tratado. Às vezes ele se faz necessário conforme o público a ser atingido.

 

Crítica de Ponta na TV precisa lapidar um pouco algumas falas, embora eu aprecie essa humanização de quem vai para o vídeo. Mesmo a televisão têm evidenciado esses comportamentos, saindo um pouco dos padrões robotizados do passado. Achei falta das conclusões dos comentaristas. No caso do comportamento dos estudantes do DCE, que poderia ser comparado ao dos políticos em época de eleição, cairiam bem imagens cobrindo as falas.

 

Parece assombroso tudo isso, mas como frisei no início, o exercício da autocrítica é uma necessidade, que se começar no meio acadêmico melhor ainda. Vai ajudar a reduzir a nossa ansiedade e nos tornar autoconfiantes ao sairmos do meio acadêmico. Autoconfiantes sem perder a ternura.