"Sexo, dinheiro e crime". Assim o jornalista Stanley Walker, editor do New York Herald Tribune, definiu o que é a notícia, ainda na primeira metade do século passado. (Aliás, quem já viu o filme Acossado, de Jean-Luc Godard, deve se lembrar da cena em que a protagonista vende o jornal, que fechou as portas em 1966, nas ruas de Paris.)

Vi a frase, dia desses, em uma enciclopédia dos anos 70. Em seguida, o redator dizia que a definição era limitante e pessimista, e que prefere pensar que notícia é um "acontecimento interessante". Mas ele explica que decidiu usar a frase de Walker para iniciar o verbete justamente por ela chamar a atenção do leitor. O que isso quer dizer? Que ele sabe que "sexo, dinheiro e crime" vão fazer alguns olhares pousarem no texto, para, quem sabe, lê-lo até o fim.

 

É o que tentei reproduzir aqui também. E o que senti falta em boa parte das matérias produzidas pelo Periódico UEPG esta semana. Um exercício interessante é pensar no primeiro parágrafo do seu livro preferido. Ele tem que ter algo intrigante. Vou citar os meus preferidos:

 

"Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo" [Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez]. Em duas frases, o leitor entende o que está acontecendo: um homem está à beira da morte, relembra sua vida e a imagem mais marcante é de quando o pai o levou conhecer algo tão banal quanto um bloco de gelo.

 

"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são cada uma à sua maneira" [Anna Karenina, Leon Tolstói]. Você não precisa ler o resto do livro para entender que ele tratará justamente dos dramas de uma família.

 

Estou dizendo tudo isso pra exemplificar que o início de qualquer texto é a sua porta de entrada. Se ele é frio, genérico, sem graça, a chance de algo mais interessante aparecer em outra aba do computador do leitor é enorme.

 

Hoje, o jornalismo precisa conviver com os estímulos constantes da redes sociais, os pushs de notícias, pop-ups, vídeos de gatos adoráveis e milhares de memes. Então precisamos facilitar o trabalho de o leitor se interessar.

 

Achei notável, por exemplo, o título "Quando o figurino vale mais que manobra e atuação". Fiquei curiosa pelos figurinos e entendi, de antemão, a crítica sutil ao espetáculo retratado. Mas o primeiro parágrafo tem cinco linhas sobre a história do circo e artes cênicas. A crítica, mesmo, ficou no último parágrafo. E só sabemos que o texto é sobre um circo que está em Ponta Grossa no fim do segundo parágrafo.

 

Citarei outros exemplos. Uma matéria une declarações de secretários da cidade sobre assuntos como obras e desemprego. As falas ficaram descontextualizadas, sem outra versão dos fatos. No caso da falta de vagas de trabalho, o secretário solta uma informação muito interessante: o saldo de vagas é negativo no Brasil e em Curitiba, mas em Ponta Grossa está positivo. Ouvi isso e na hora tive vontade de entender o motivo. O que tem de diferente em Ponta Grossa do resto do país? O problema é que é apresentada apenas a versão oficial, da prefeitura, sem contextualização, dados ou contrapontos. Valia uma pauta sobre o assunto, para também fugir da versão oficial --que deve constar no texto, mas sempre questionada e aprofundada.

 

A falta do "outro lado" também foi gritante na entrevista com as novas integrantes do DCE. É importante questioná-las sobre as propostas para os problemas do campus, até para cobrar no futuro. Porém, na entrevista, elas fazem algumas críticas à antiga chapa, como a possibilidade de ter deixado dívidas. Seria imprescindível ouvi-los também. Como isso não foi feito no vídeo, vale uma nova matéria para que eles possam avaliar a gestão anterior e responder aos questionamentos.

 

Na matéria de futebol, um lead frio: começou pelo jogo que já aconteceu há alguns dias. O importante é o jogo do dia. Porque quem se interessa por essa notícia provavelmente é torcedor, e, sendo assim, espera-se que já saiba o resultado. Vale citar o jogo, mas apenas no fim.

 

Isso também apareceu no material sobre a audiência sobre ensino público. Quais foram os pontos altos do debate? O papel do jornalista é, também, de uma curadoria dos assuntos que cobre. O lead apresentado dá informações genéricas sobre um evento que já passou. Isso não interessa. E ninguém clica em um vídeo com a íntegra de um debate sem saber se vai ter algo minimamente interessante ali.

 

Mas nada disso é o fim do mundo. Essa busca pelo mais interessante, o "molho" que dá sabor ao texto, é uma busca constante que todos nós perseguimos durante a trajetória profissional.

 

Uma dica boa é a que a colega Estelita Haas deu em sua coluna: como você contaria a história para alguém no ônibus? Ou para a sua vó? Este é o começo do seu texto.

 

Aproveito o espaço para passar duas sugestões aos editores: colocar, de forma clara, a data de postagem dos vídeos. E cuidar da atualização das redes sociais (a página do Facebook é bem mais atualizada que a do Twitter, por exemplo).

 

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