Em pouco mais de seis anos como correspondente na Folha de S.Paulo, criei uma mania: sempre que viajo, anoto num bloquinho o nome dos principais jornais, rádios e canais de comunicação da cidade que visito. Não só porque podem ser boas fontes de pauta, mas porque ainda sou daquelas que pensa que, com uma boa folheada no jornal local, se faz uma viagem àquela comunidade, seus interesses, seus protagonistas e antagonismos.

Nem sempre encontro representantes do bom jornalismo, que contemplam os tensionamentos de uma comunidade e conseguem ser como historiadores em tempo real. Mas já posso acrescentar o Portal Periódico à minha listinha.

O que mais me impressionou positivamente no trabalho dos estudantes da UEPG foi a relevância e consistência da pauta do portal, mesmo que com periodicidade diária.

Encontrei, quase todos os dias (em alguns mais, outros menos), bons artigos sobre temas relevantes para a cidade de Ponta Grossa, que lançam luzes sobre debates prementes ou ainda ocultos.

Admirável também o esforço de trazer um serviço útil ao estudante e à comunidade acadêmica da UEPG, como notícias sobre o próximo Intercom e a reforma da Casa do Estudante.

Minha leitura preferida foi, de longe, a reportagem sobre a comunidade quilombola da colônia Sutil –pela relevância do tema e pela pluralidade de fontes. A referência sobre o “lugar de gente escura”, citada no texto, apresenta com sutileza o racismo de parte da população local. Merece reconhecimento o esforço dos repórteres de aprofundarem as temáticas, a partir do relato dos moradores, ouvindo pesquisadores, o Incra e a prefeitura de Ponta Grossa – e contemplando, dessa maneira, os antagonismos típicos da condição humana.

Também foram boas pautas a entrevista sobre a mudança na APA da Escarpa Devoniana, tema de interesse público; a reportagem sobre mulheres na música, que, no entanto, pecou ao não colocar nenhuma música no vídeo; e o Crítica de Ponta sobre o Uber em Ponta Grossa: um bom trabalho de pesquisa sobre a regulamentação do aplicativo em outras cidades deu contexto e qualidade à crítica.

Claro, há o que melhorar: em alguns casos, mesmo com uma pauta relevante, faltou aprofundamento e precisão na escolha do lide.

Por que não, por exemplo, falar mais sobre o debate travado no interessantíssimo Clube da Leitura da UEPG? Por que negar ao leitor a oportunidade de saber mais sobre John Coltrane ou o autor, Paolo Parisi?

Mesmo que traga um serviço relevante para o público, a reportagem precisa fugir do institucional.

É um problema comum a outros artigos do portal – abrir o lide com um burocrático “aconteceu nesta sexta-feira, promovido por Fulano de Tal” não atende ao interesse do leitor, mas ao interesse de quem promove o evento. O que eu, leitora, quero saber é: o que você ouviu de mais interessante ou novo por lá? Como isso pode me afetar ou despertar minha atenção?

Minha colega e mentora Ana Estela de Sousa Pinto costuma dizer: se você tivesse que contar essa notícia para o passageiro ao seu lado no ônibus, por onde você começaria? Aí está o lide.

A maior parte das chamadas já segue essa lógica. Falta adequar os textos e vídeos –como, por exemplo, na reportagem sobre o seminário em saúde pública, onde a informação mais interessante está no final do vídeo: o número de especialistas do SUS por habitante em Ponta Grossa.

O bom jornalismo local não pode se acomodar a fazer apenas o registro burocrático dos acontecimentos, mas precisa saber extrair o que há de mais “glocal” naquele fato – ou seja, o que é de interesse global, o que ali é uma temática ou problema comum a outras pessoas, cidades ou países ao redor do mundo. Se conseguirem ter essa sensibilidade, que já demonstraram ao escolher a linha editorial e as pautas do Periódico, os estudantes da UEPG farão um jornalismo de primeira linha.

Entre em contato com os ombusman do Periódico pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.