No 100º aniversário do marco histórico, mestrado de jornalismo da UEPG convida comunidade acadêmica para diálogo interdisciplinar

Foto: Leonardo Camargo

 

Na quarta-feira (4), o Mestrado em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa promoveu o evento “Diálogos: Jornalismo, História e Literatura”, que recordou os 100 anos da Revolução Russa. Os convidados Álvaro Nunes Larangeira, Rodrigo Czajka e Ben-Hur Demeneck discutiram as influências marxistas, o papel da mídia e os legados da Revolução que estabeleceu a Rússia como nação socialista. O evento teve mediação da professora do Departamento de Jornalismo Hebe Gonçalves e aconteceu no Pequeno Auditório do Campus Central da UEPG.

Na abertura, Hebe Gonçalves lamentou a morte do filósofo marxista István Mészáros. Fez uma breve fala para contextualizar a Revolução Russa, em que singularizou a participação das mulheres e o papel da imprensa – o que caracterizou como “auge do jornalismo”. A professora criticou a celebração da Revolução Francesa em detrimento de um movimento proletário como o de 1917.
Os convidados ocuparam a fala para abordar o tema central sob suas diferentes perspectivas e a noite continuou com um momento de perguntas e falas, em que o público lamentou o desinteresse generalizado sobre a Revolução Russa face a romantização da Revolução Francesa, e refletiu sobre os efeitos da acontecimento de 1917 no atual contexto socio-democrático brasileiro.

 

Clima nostálgico marca fala dos convidados

O professor da Universidade Federal do Paraná Rodrigo Czajka aponta em sua fala o equívoco comum na leitura de Marx, que entende o pensador como precursor das revoluções. A Revolução Russa não adotou o marxismo como base – esse embasamento do marxismo acontece numa fase posterior. O professor Czajka aponta a importância dos estudos de uma vanguarda de pensadores como Walter Benjamin, György Lukács e Max Horkheimer, que desejavam renovar os ideais de Marx na tentativa de mostrar os diferentes pensamentos do autor e esclarecer a profundidade e diversidade do marxismo, como a existência de um jovem Marx que pensava dialeticamente.

Czajka critica a falha da Segunda Internacional em defender o determinismo histórico e econômico, que ignora a dialética de Marx. A Segunda Internacional foi criada em 1889 como sucessora da Primeira Internacional. Era uma associação livre de partidos socialdemocratas e trabalhistas, integrada tanto por elementos revolucionários quanto reformistas. O caráter progressista da organização chegou ao fim em 1914, quando suas seções mais importantes violaram os princípios mais elementares do socialismo ao apoiar os governos imperialistas na Primeira Guerra Mundial. Se desintegrou durante a guerra, porém ressurgiu como organização totalmente reformista em 1923. “A questão básica é que a Segunda Internacional engessou uma leitura mais concreta da realidade”, aponta o professor, que acredita que o evento age paradoxalmente, uma vez que simplifica Marx ao não se aprofundar em sua literatura, ao mesmo tempo que o dá visibilidade, tornando-o mais popular. Para Czajka, a questão cultural seria importante no sentido de pensar os desdobramentos da revolução pós 1917 e declara que “ao desconsiderar a práxis revolucionária, a Segunda Internacional esqueceu que o desenvolvimento cultural e artístico também influencia na formação da revolução”. Era necessário enxergar um mundo da cultura, da própria organização da sociedade.

O professor da Universidade Tuiuti do Paraná Alvaro Nunes Larangeira orienta o projeto de pesquisa 100 anos da Revolução Russa: mídia, imaginários, representações e temores que estuda a cobertura dos jornais brasileiros sobre a revolução russa. Durante sua fala, ele citou o caso do jornal A Noite, produzido por Irineu Marinho (que no futuro fundaria a Rede Globo) que noticia a queda do poder de Nicolau II em fevereiro de 1917 com a manchete A Rússia no caminho da liberdade. No mesmo ano, em outubro, o posicionamento do jornal muda drasticamente quando noticia a Revolução Russa com a manchete Bando de anarquistas tensiona tomar o poder na Rússia. À priori, a primeira manchete aparenta um posicionamento otimista do jornal com as transformações na Rússia, mas depois critica a revolução e a resume à baderna.

 

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No caso da manchete de fevereiro, o professor Alvaro explica que existia um otimismo do Brasil numa perspectiva econômica, uma vez que a passagem da Rússia monarquista para um estado liberal abriria mais as oportunidades do mercado, expandindo o sistema capitalista. Quando o jornal toma conhecimento das reais ambições da oposição russa em dar todo poder ao povo e consolidar um sistema socialista, a linha editorial muda e ataca os acontecimentos revolucionários no país. O professor analisa que havia uma dificuldade da hegemonia brasileira em entender a magnitude da revolução que partia do povo. Para o professor, o que acontecia era uma “pré-disposição vocacional povofóbica da elite brasileira”. O professor exalta a importância da Revolução Russa e afirma que “em 1917 temos um movimento social que redefine o eixo terrestre”.

Já o professor de Jornalismo da UEPG Ben-Hur Demeneck tratou da Revolução Russa a partir de uma perspectiva cultural. Demeneck baseou sua fala nos livros “Dez dias que abalaram o mundo”, de John Reed, e “O Fim do Homem Soviético”, de Svetlana Alexsevitch. A obra de Reed é um dos primeiros livros-reportagem da história e traz um relato detalhado sobre os acontecimentos da revolução. Jornalista correspondente na Rússia, Reed acompanhou as grandes figuras bolcheviques do movimento, como Lênin, Trotsky.
Para Demeneck, Reed foi um jornalista romântico e boêmio, presente nos grandes eventos políticos de sua época e que trouxe o calor dos fatos para suas narrativas. O professor singularizou a obsessão de Reed em tratar dos eventos com muitos detalhes, trazendo extensas descrições, documentos e discursos na íntegra. Já que teve a chance privilegiada de acompanhar os acontecimentos ao lado das principais figuras da revolução, Reed escreve sobre personagens históricos caracterizando Trotsky como um estrategista agressivo e Lênin como um líder nato e inspirador.

Demeneck salienta a necessidade da leitura de ambos os livros para entender o cenário político internacional pós-União Soviética. Ao tratar da obra de Alexsevitch, o professor comenta os elementos da “alma russa” que caracterizam a identidade do povo anterior e posterior à URSS. Símbolos da identidade russa, como Kremlim, Petrogrado e figuras como Boris Yeltsin e Anton Gorbatchev estiveram presentes em histórias compartilhadas pelo professor. Ao fim de sua fala, Demeneck exibiu um trecho do filme “Encouraçado Potekim”, do cineasta russo Eisestein.